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Símbolos e silêncio a serviço do bem
  Enviado em Mon 23 Mar 2009 por Fernando Duarte (652 leituras)
Quarta-feira passada, nossa terra viveu um dos mais expressivos momentos de sua História, entretanto, pelas próprias peculiaridades que o caracterizam, foi testemunhado apenas por limitado número de felizardos. Nestas maltraçadas, por diversas vezes tenho falado sobre a Loja Maçônica Areópago Itabunense, minha Casa Mãe, fundada em 1º de fevereiro de 1922 por um grupo dos cidadãos mais expressivos da sociedade de então. Aqui esteve à frente de numerosa caravana de Luzes e Dignidades, o sereníssimo grão-mestre da Maçonaria do Estado da Bahia, poderoso irmão Itamar Assis Santos, que, além de presidir as solenidades da noite, recebeu a comenda de Membro Benemérito da Areópago Itabunense. Vale acrescentar que a efeméride coloca essa Loja como primeira de toda a região a reiniciar seus trabalhos para 2009. O venerável mestre Eraldo Bussular mostrou-se um perfeito anfitrião liderando o acolhimento fraternal aos irmãos integrantes da numerosas Lojas presentes. Compromissos anteriormente assumidos para proferir aula inaugural em dois colégios impediram-me atender ao honroso convite, porém, mais expressivo que minha presença pessoal foi ter sido representado pelo mestre e irmão Jorge Neme, a quem confiei tal missão. Foi ele, também, o orador oficial, tendo produzido uma peça extraordinariamente bela, perpassando com sua conhecida maestria e erudição muitos dos principais episódios vividos pela Irmandade nesses 87 anos de existência. Neme sempre exortou os irmãos sobre o fato de que todo maçom acredita ser a História verdadeira mestra de nossa vida.

Convidados especiais, cunhadas e sobrinhos ingressaram no Templo sob a abóbada de espadas e após a solenidade participaram de recepção no Salão dos Banquetes, onde foram recepcionados pelas integrantes do Clube da Fraternidade, lideradas pela cunhada Rejane Bussular sua presidenta. Para alguns dos queridos quase nenhum leitores, a expressão “Templo” poderá soar estranho, mas será bom lembrar que os recintos maçônicos rendem-se ante a beleza e a perfeição, porque provavelmente os maçons inspiram-se naquilo que deixou ensinado o escritor Oscar Wilde, citado pelo catedrático Aldo Dela Mina, no seu dicionário da Sabedoria: “... a beleza é a única coisa que o tempo não pode prejudicar, pois as filosofias desfazem-se como areia e as crenças passam umas após outras, mas o que é belo por dentro é um prazer para todas as estações, uma possessão para toda eternidade”. Nunca será demais insistir que a Maçonaria é instituição séria, respeitada, admirado e consagrada como uma sociedade secreta, onde se pratica exclusivamente o bem sem olhar a quem; forja masmorras ao vício; busca incessantemente servir ao próximo, assim como a toda Humanidade. Nela, sempre inquire-se: o que é o Homem na Natureza? Um nada, se comparado ao infinito; um tudo, se comparado ao nada; um meio entre nada e tudo. O saudoso irmão Joseph Rafle Saloume, certa vez, quando no meu tempo de simples e ainda curioso “aprendiz”, perguntei-lhe por que se exigia tanto mistério sobre uma entidade que só faz o bem, colocou em meu bolso um papel, recomendando ler quando estivesse disposto a meditar sobre o significado da frase ali contida: “quem estiver afastado da compreensão dos extremos, o fim das coisas e seu princípio estão escondidos num segredo impenetrável, incapaz de ver o nada de onde é tirado e o infinito pelo qual é absorvido”. Conservo em meus pertences até hoje, na esperança de algum dia decifrar a mensagem que desejou me passar. Certamente, lá do Oriente Eterno onde se encontra, quem sabe pode estar olhando-me e naquele característico modo de falar quase sibilante, sussurrando “ainda não entendeu, é?”. Parece-me sentir os leves empurrões com os quais nos apressava a ingressar no Templo...

Aprendi que Maçonaria não é seita, nem religião. É simplesmente uma Ordem Secreta. Não abriga mistérios malévolos. Esconde apenas a mão que ampara o próximo, que dá a esmola, que ajuda quem sofre. Discrição no ato de servir, silêncio na ação de lutar e humildade na hora das vitórias são apanágios que orgulham os maçons. Alguns símbolos e gestos que não chegam ao conhecimento daqueles que não pertencem aos seus quadros, simplesmente dizem respeito a normas internas, rigidamente dentro da moral e da virtude. Thomas Carlyle escreveu que os símbolos dirigem o Homem a ele se impondo, tornando-o feliz ou miserável; por toda a parte o ser humano se encontra delimitado por símbolos. O próprio Universo é um imenso símbolo. E o que é o Homem, senão um símbolo de Deus? Os cristãos, quando sofriam perseguições, obrigados ao refúgio das cavernas, usavam o peixe como símbolo. E por que o fizeram? Foi porque cada letra da palavra grega que significava “peixe” correspondia no seu conjunto à inscrição colocada pelos judeus no lenho sagrado: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. O símbolo maior de todos nós, verdadeira bússola do Homem, é a Cruz de Cristo, símbolo da Libertação fincado no Alto do Gólgota.

Segreda e silêncio sempre existiram, inseparáveis, em toda a história da Humanidade. Aristóteles, por exemplo, proclamava aos seus seguidores que as coisas mais difíceis para uma pessoa eram duas: guardar um segredo e manter o silêncio. Pitágoras, igualmente dessa teoria, submetia seus discípulos a uma dura prova de silêncio que durava meses a fio. Não é de estranhar-se, portanto, que na Maçonaria o símbolo e o silêncio ocupem posição de destaque. O maçom, mantendo segredo de atos e fatos da Ordem, está exercitando o seu caráter, revigorando e dando firmeza a sua vontade, acostumando-se a manter sobre ele próprio um domínio cada vez maior. Isso é o que torna a Maçonaria uma forja de homens de caráter disciplinado, vontade férrea e disposição de fazer o bem. E quero concluir, relembrando frase pronunciada por Dom Walfredo Teppe, bispo Diocesano de Ilhéus, em seu discurso respondendo à saudação que, por determinação do Venerável Jorge Carilho, lhe fiz quando de sua visita ao Templo da Areópago Itabunense em 17 de março de 1976: “... um maçom que, em são consciência e absoluta lealdade, julga sua fé não encontrar na Loja nada sistematicamente hostil e organizado contra a Igreja Católica e seus princípios doutrinários e morais, não precisa mais se considerar excomungado. Poderá continuar na Maçonaria e participar plenamente da vida eclesial”.

Autor: Irmão Adelindo Kfoury
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